Diálise Peritoneal: O Guia Completo da Diálise Feita em Casa (SUS)

Publicado em 22/02/2026 • 12 min de leitura

Paciente realizando diálise peritoneal no ambiente doméstico com segurança e conforto
A diálise feita em casa permite que o paciente mantenha sua rotina produtiva e social.

Para muitos pacientes com Doença Renal Crônica (DRC), a palavra "diálise" evoca imagens de clínicas, máquinas barulhentas e viagens cansativas três vezes por semana. No entanto, existe uma modalidade que devolve a autonomia: a diálise peritoneal, popularmente conhecida como a diálise feita em casa.

Neste guia completo, vamos mergulhar nos detalhes técnicos, práticos e emocionais dessa modalidade. Você entenderá desde como a membrana do peritônio funciona como um filtro natural até como solicitar o tratamento pelo SUS. Nosso objetivo é fornecer a informação necessária para que você, junto ao seu nefrologista, tome a melhor decisão para sua saúde e estilo de vida.

O que você vai aprender:

  • O mecanismo fisiológico da membrana peritoneal.
  • Diferenças entre CAPD e diálise por cicladora (APD).
  • Vantagens nutricionais e de liberdade geográfica.
  • Como prevenir a temida peritonite.

Como a Diálise Peritoneal Funciona? O Filtro Natural

Diferente da hemodiálise, que filtra o sangue fora do corpo através de um dialisador (rim artificial), a diálise peritoneal utiliza uma membrana que você já possui: o peritônio. Esta membrana reveste os órgãos abdominais e é rica em minúsculos vasos sanguíneos.

O processo se inicia com a inserção de um cateter flexível no abdômen através de uma pequena cirurgia. Por esse cateter, um líquido especial chamado dialisato é introduzido na cavidade peritoneal. Através de processos físicos chamados osmose e difusão, as toxinas (como ureia e creatinina) e o excesso de água passam do sangue para o líquido de diálise através da membrana do peritônio.

Após algumas horas (o tempo de permanência), o líquido saturado de impurezas é drenado para fora do corpo, e um novo líquido limpo é inserido. É um processo contínuo e mais suave que a hemodiálise convencional.

Tipos de Diálise Peritoneal: Manual vs. Automática

Existem duas formas principais de realizar a diálise em casa, adaptando-se a diferentes rotinas:

1. CAPD (Diálise Peritoneal Ambulatorial Contínua)

Esta é a forma manual. O paciente realiza cerca de 4 trocas ao longo do dia. Cada troca leva cerca de 30 a 40 minutos. Entre as trocas, o paciente está livre para trabalhar, estudar ou realizar suas atividades normais com o líquido agindo dentro do abdômen.

2. APD (Diálise Peritoneal Automatizada)

Nesta modalidade, utiliza-se uma máquina compacta chamada cicladora. O tratamento acontece geralmente à noite, enquanto o paciente dorme. A cicladora realiza as trocas automaticamente no período de 8 a 10 horas. Durante o dia, o paciente permanece sem líquido (ou com uma única permanência longa), o que oferece o máximo de liberdade possível.

⚠️ Regra de Ouro: Higiene é Vida

O maior risco da diálise peritoneal domiciliar é a peritonite (infecção do peritônio). Ela ocorre quando bactérias entram pelo cateter durante a conexão das bolsas. Por isso, o treinamento foca exaustivamente em lavagem das mãos, uso de máscara e limpeza do ambiente. Uma técnica rigorosa é o que garante o sucesso do tratamento por anos.

Vantagens Reais: Por que escolher a Diálise em Casa?

A ciência e os relatos de pacientes confirmam: a diálise domiciliar oferece benefícios que vão além da conveniência:

  • Preservação da Função Renal Residual: A diálise peritoneal é mais suave e costuma manter a capacidade do rim de produzir urina por mais tempo do que a hemodiálise.
  • Dieta Menos Restritiva: Como a filtragem é feita diariamente (e não 3 vezes por semana), os níveis de potássio e fósforo no sangue oscilam menos, permitindo uma alimentação mais variada.
  • Estabilidade Cardiovascular: Não há as quedas bruscas de pressão comuns nas sessões rápidas de hemodiálise, o que protege o coração a longo prazo.
  • Liberdade para Viajar: As bolsas de líquido podem ser entregues em qualquer lugar do país (ou mundo), e a cicladora é portátil, permitindo que o paciente viaje sem depender de vagas em clínicas.

Diálise Peritoneal pelo SUS: Como Solicitar?

Muitas pessoas acreditam que o tratamento renal domiciliar é um privilégio de convênios caros, mas a realidade é que o SUS é o maior fornecedor desta modalidade no Brasil. O governo cobre não só as bolsas de líquido, mas também o aluguel da cicladora e todo o material de apoio (gaze, antissépticos, etc).

Para migrar para a DP, o paciente deve:

  1. Manifestar o interesse ao seu nefrologista atual.
  2. Passar por uma avaliação da equipe de enfermagem da DP (ambiente da casa e capacidade de aprendizado).
  3. Realizar a pequena cirurgia de implante do cateter (Cateter de Tenckhoff).
  4. Passar por um treinamento que dura geralmente de 5 a 10 dias na clínica.
Característica Hemodiálise Convencional Diálise Peritoneal
Local Clínica especializada Sua casa
Filtro Dialisador artificial Membrana do Peritônio
Acesso Fístula ou Cateter Venoso Cateter Abdominal
Freqüência 3x por semana (4h cada) Diária (Contínua)

Conclusão: A Diálise Feita em Casa no Seu Tempo

A diálise peritoneal não é apenas um tratamento; é um estilo de vida. Ela exige disciplina, organização e um ambiente limpo, mas em troca oferece algo impagável para o paciente renal: o tempo. O tempo de dormir na própria cama, o tempo de trabalhar sem interrupções e o tempo de se sentir menos "doente" e mais dono da própria jornada.

Se você teme agulhas, deseja manter seu emprego ou quer mais liberdade para comer e viajar, a diálise peritoneal pode ser o seu caminho de ouro. Converse com seu nefrologista e peça para conhecer a unidade de diálise domiciliar. O conhecimento é o primeiro passo para a liberdade no tratamento renal.

Perguntas Frequentes (FAQ)

1. A diálise peritoneal dói?

O processo de entrada e saída do líquido é indolor. A maior vantagem é a ausência das agulhadas constantes exigidas na hemodiálise convencional.

2. Posso tomar banho de mar ou piscina com o cateter?

Existem protocolos específicos. Geralmente, banhos de mar e piscina são evitados para prevenir infecções, mas existem curativos especiais à prova d'água que podem ser liberados pela equipe médica em situações específicas.

3. O que acontece se a energia acabar durante a diálise por cicladora?

As cicladoras modernas possuem bateria interna e alarmes. Além disso, o paciente é treinado para finalizar o processo manualmente (como na CAPD) caso a energia não retorne, garantindo total segurança.