O Brasil enfrenta hoje a fase mais aguda de uma crise histórica na nefrologia. O que os especialistas chamam de "bomba-relógio" é resultado de uma combinação perversa: o aumento explosivo da demanda por tratamento, uma desigualdade territorial severa e um subfinanciamento público que já acumula quase 100% de defasagem inflacionária. Atualmente, mais de 170 mil brasileiros dependem da diálise para sobreviver, mas o sistema está no limite de sua capacidade.
O Lado Humano: A Saga Pela Sobrevivência
Para entender a gravidade da crise, é preciso olhar para casos como o da aposentada Ednólia, de 71 anos. Moradora de Baião, no interior do Pará, ela acorda às duas da manhã, três vezes por semana, para enfrentar uma viagem de até seis horas rumo a Belém. Após uma sessão de hemodiálise desgastante de quase quatro horas, ela repete o percurso de volta. São dez horas de estrada para cada quatro de tratamento.
Já no Rio de Janeiro, Adenice Queiroz, de 60 anos, ilustra outra face do problema: a "fila invisível". Mesmo precisando de tratamento ambulatorial, pacientes como ela permanecem internados em hospitais públicos ocupando leitos de alta complexidade apenas porque não há vagas disponíveis em clínicas próximas às suas residências. Segundo a Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), em meados de 2025, mais de mil pacientes estavam retidos em hospitais aguardando uma vaga externa.
Uma Demanda que Não Para de Crescer
O Censo Brasileiro de Diálise de 2024 traz números alarmantes. Em apenas uma década, a taxa de pacientes em diálise saltou de 550 para 812 por milhão de habitantes. Esse aumento é impulsionado pelo avanço de doenças crônicas como diabetes e hipertensão, muitas vezes agravadas por diagnósticos tardios.
Só no último ano, mais de 52 mil pessoas iniciaram o tratamento dialítico no Brasil. A maioria desses inícios ocorre em caráter de urgência, com o paciente já hospitalizado, o que sobrecarrega ainda mais a porta de entrada do sistema público.
A Dependência do SUS
Quase 80% dos pacientes em diálise no Brasil são atendidos pelo SUS. Na região Norte, esse percentual ultrapassa os 90%. Como a maioria das unidades de diálise é privada ou filantrópica, o setor depende inteiramente do financiamento público para sobreviver e expandir.
Subfinanciamento: A Defasagem de 96,17%
O problema central da crise é econômico. O valor que o governo paga por cada sessão de hemodiálise não cobre mais os custos básicos de operação. Se o valor pago em 1999 (R$ 93,58) fosse corrigido pela inflação oficial, a sessão deveria custar hoje cerca de R$ 472,71. No entanto, o SUS repassa apenas R$ 240,97.
Essa defasagem de 96,17% significa que as clínicas estão operando no vermelho. Insumos médicos, filtros, linhas, energia elétrica e salários subiram muito acima do repasse público. Além disso, a carga tributária em alguns estados pode consumir mais de 50% do valor recebido, sufocando financeiramente as unidades.
O Abismo Geográfico da Saúde Renal
Um estudo da Unesp revela que apenas 59% dos pacientes conseguem tratamento em sua própria região metropolitana. No Sudeste, a distância média percorrida é de 27,6 km. No entanto, no Norte, essa distância média dispara para 84,3 km, com deslocamentos extremos que podem chegar a 353 km.
Essa desigualdade territorial transforma o tratamento em uma tortura logística. Pacientes renais crônicos, frequentemente debilitados e com dores, passam grande parte de suas vidas dentro de veículos de transporte sanitário, muitas vezes sem as condições adequadas de conforto.
Diálise Peritoneal: Uma Alternativa Subutilizada
Mais de 87% dos pacientes brasileiros realizam hemodiálise, que exige deslocamento frequente. A diálise peritoneal, feita em casa pelo próprio paciente ou familiar, poderia desafogar as clínicas. Contudo, barreiras culturais, falta de treinamento de equipes e ausência de uma política de incentivo robusta mantêm essa modalidade acessível a menos de 10% da população renal.
⚠️ Alerta de Colapso
O Dr. José Moura Neto, presidente da SBN, alerta para um risco real de desassistência em massa. Sem reajustes urgentes, clínicas podem fechar as portas, deixando milhares de pacientes sem o tratamento que os mantém vivos.
O que diz o Ministério da Saúde?
O Ministério da Saúde reconhece que a tabela está desatualizada. Recentemente, o governo informou que encomendou um estudo à Fundação Getulio Vargas (FGV) para reavaliar os custos da diálise no país. Há promessas de atualização da Tabela SUS e novos investimentos em transporte sanitário, mas as entidades médicas cobram agilidade, alegando que o setor não pode mais esperar.
FAQ - Esclarecendo a Crise da Nefrologia
Como a crise da diálise afeta as cirurgias e outros atendimentos?
Como pacientes renais estáveis ficam retidos em leitos hospitalares aguardando vagas em clínicas, eles ocupam espaços que seriam destinados a cirurgias eletivas e outros atendimentos graves, paralisando o fluxo dos hospitais públicos.
Existe risco de interrupção do tratamento?
Sim. Algumas clínicas em diversas regiões do país já manifestaram impossibilidade de aceitar novos pacientes e dificuldades para manter o estoque de insumos básicos devido à falta de recursos.
O que o paciente deve fazer em caso de falta de vaga?
O primeiro passo é garantir o registro na regulação municipal e estadual. Caso o direito ao tratamento não seja garantido em tempo hábil, o paciente ou familiar deve procurar a Defensoria Pública ou o Ministério Público para garantir a assistência via judicialização.
Conclusão: Um Olhar para o Futuro
A crise da diálise no Brasil é um problema estrutural que exige uma reforma profunda no modelo de financiamento e uma regionalização agressiva da saúde renal. No Renal Expert, defendemos que cada vida importa e que o acesso à diálise não deve ser um privilégio, mas uma garantia de dignidade para todo cidadão brasileiro.