Enquanto uma professora de 39 anos dorme em sua casa, em São Paulo, uma máquina ao lado de sua cama trabalha silenciosamente, realizando um procedimento vital que lhe devolveu a rotina e a liberdade. No mesmo Brasil, uma aposentada de 41 anos, do interior do Nordeste, acorda antes do amanhecer três vezes por semana para percorrer quilômetros em busca do mesmo objetivo: sobreviver.
Entendendo a Jornada Renal: Da Doença Silenciosa à Necessidade de Diálise
A Doença Renal Crônica (DRC) é uma epidemia silenciosa. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), ela afeta uma em cada dez pessoas no mundo. No Brasil, o Ministério da Saúde estima que 6,7% dos adultos convivam com a condição, um número que triplica entre os idosos. Trata-se de uma lesão progressiva e, na maioria das vezes, irreversível dos rins.
O grande desafio da DRC é seu caráter assintomático nos estágios iniciais. Sintomas como inchaço nas pernas, alterações na cor ou espuma na urina, cansaço extremo e perda de apetite costumam aparecer apenas quando a função renal já está severamente comprometida.
“Os principais fatores de risco para a doença incluem hipertensão, diabetes, tabagismo, obesidade e o próprio envelhecimento. Uma vez afetada a função do rim, não há reversão, mas podemos desacelerar a piora.” — Especialista em Nefrologia
Hemodiálise vs. Diálise Peritoneal: Decodificando as Opções
Embora ambas as terapias substituam a função renal, a forma como são realizadas e o impacto na rotina do paciente são profundamente diferentes.
1. A Hemodiálise: A Rotina que Salva Vidas
A hemodiálise (HD) é o método mais conhecido e difundido no Brasil. Realizada em clínicas ou hospitais, o sangue do paciente é retirado do corpo, passa por uma máquina com um filtro artificial que remove as impurezas, e depois é devolvido limpo.
2. A Diálise Peritoneal: A Liberdade de Tratar-se em Casa
A diálise peritoneal (DP), por outro lado, oferece uma revolução na autonomia do paciente. Nesta modalidade, o próprio corpo atua como filtro. Um líquido especial é inserido na barriga por meio de um cateter, absorve toxinas e excesso de líquidos e depois é drenado.
O Paradoxo de R$ 9 Bilhões no SUS
Se a diálise peritoneal oferece tantos benefícios, por que ela representa uma fração ínfima dos tratamentos? Os números são chocantes: dos mais de 36,6 milhões de atendimentos de diálise nos últimos dois anos, apenas 171 mil foram de DP. A disparidade de investimento de R$ 9,3 bilhões contra R$ 46,5 milhões aponta para um problema estrutural de financiamento.
Para Quem é a Diálise Peritoneal? Mitos e Verdades
É crucial desmistificar a ideia de que a DP é para poucos. As contraindicações são específicas: pacientes que passaram por múltiplas cirurgias abdominais, pois o peritônio pode estar comprometido; ou aqueles com dificuldades motoras severas sem cuidador.
O Futuro da Diálise no Brasil
A diálise peritoneal e a hemodiálise não são concorrentes, mas terapias complementares. A existência de uma alternativa que pode libertar o paciente da rotina hospitalar é uma conquista que não pode ser negligenciada.
Para acessar o tratamento pelo SUS, o caminho começa na Unidade Básica de Saúde (UBS). Pacientes e familiares devem se informar e questionar ativamente seus médicos sobre todas as modalidades de tratamento disponíveis.
Fonte: Renal Expert News